INTRODUÇÃO

A água de consumo humano é um dos importantes veículos de enfermidades diarréicas de natureza infecciosa, o que torna primordial a avaliação de sua qualidade microbiológica (Isaac-Marquez et al,12 1994).

As doenças de veiculação hídrica são causadas principalmente por microrganismos patogênicos de origem entérica, animal ou humana, transmitidos basicamente pela rota fecal-oral, ou seja, são excretados nas fezes de indivíduos infectados e ingeridos na forma de água ou alimento contaminado por água poluída com fezes (Grabow,11 1996).

O risco de ocorrência de surtos de doenças de veiculação hídrica no meio rural é alto, principalmente em função da possibilidade de contaminação bacteriana de águas que muitas vezes são captadas em poços velhos, inadequadamente vedados e próximos de fontes de contaminação, como fossas e áreas de pastagem ocupadas por animais (Stukel et al,21 1990). O uso de água subterrânea contaminada, não tratada ou inadequadamente desinfetada foi responsável por 44% dos surtos de doenças de veiculação hídrica nos Estados Unidos, entre 1981 e 1988 (Craun,5 1991).

No meio rural, as principais fontes de abastecimento de água são os poços rasos e nascentes, fontes bastante susceptíveis à contaminação. No Reino Unido, após analisar-se amostras de água de fontes privadas, verificou-se que 100% das amostras dos poços e 63% das nascentes estavam fora dos padrões de potabilidade, representando um risco considerável a saúde dos consumidores (Fewtrell et al,7 1998). Pinfold17 (1990), em trabalho realizado nas Filipinas, verificou que crianças que consumiram água altamente poluída com matéria fecal (>10Escherichia coli 100mL-1) tiveram uma ocorrência de diarréia significativamente maior (p<0,01) que aquelas que consumiram águas com menor nível de poluição.

Em estudo realizado no Canadá, foi possível o isolamento de Escherichia coli O157:H7 das fezes de uma criança com diarréia sanguinolenta e na água do poço da residência onde ela residia. Além disso, a mesma bactéria foi isolada nas fezes de 63% dos bovinos da fazenda (Jackson et al,13 1998).

Conboy & Goss4 (2000) citam que a deposição diária de resíduo orgânico animal no solo, prática muito disseminada no meio rural, aumenta o risco da contaminação das águas subterrâneas. O dejeto bovino depositado no solo representa risco de contaminação das fontes de água, uma vez que esses animais são reservatórios de diversos microrganismos como Criptosporidium parvum e Giardia sp., causadores de enfermidades humanas. Isso mostra o papel desses animais na contaminação ambiental por esses importantes patógenos de veiculação hídrica (Fayer et al,6 2000).

A água de escoamento superficial, durante o período de chuva, é o fator que mais contribui para a mudança da qualidade microbiológica da água (Geldreich,9 1998). Em estudo realizado no México, concluiu-se que a presença de coliformes nas amostras das águas dos mananciais estudados e dos domicílios tiveram relação direta com a presença de chuva, devido ao arraste de excretas humanas e animais. Concluiu-se também que a ausência de tratamento favoreceu o alto nível de contaminação encontrado (Gonzalez et al,10 1982).

Durante a ocorrência de um surto de criptosporidiose na Inglaterra, entre novembro de 1992 e fevereiro de 1993, foi possível associar o consumo de água de fonte subterrânea não tratada ao aparecimento de enfermidades. Os autores afirmam que, durante o período de chuva, a infiltração da água de escoamento de uma pastagem que apresentava fezes animais, para dentro da fonte, foi a causa da contaminação. Além disso, afirmam que o monitoramento periódico da qualidade microbiológica da água e a observação das medidas de proteção das fontes privadas são fatores muito importantes para a prevenção de doenças de veiculação hídrica (Bridgman et al,2 1995).

A maioria das doenças nas áreas rurais podem ser consideravelmente reduzidas, desde que a população tenha acesso a água potável. Entretanto, um dos maiores problemas das fontes particulares é a ausência de monitoramento da qualidade da água consumida (Misra,16 1975).

Em estudo realizado no Reino Unido, verificou-se que muitas fontes particulares tinham suas águas analisadas anualmente ou com menor freqüência, apesar de serem fontes expostas a grandes riscos de contaminação por se situarem na área rural. Também verificou-se que o risco de se contrair doenças de veiculação hídrica pelo consumo de água de fontes particulares era 22 vezes maior que pelo consumo da água do sistema público de abastecimento (Shepherd & Wyn-Jones,19 1997).

Baseado no exposto, o objetivo do presente artigo foi verificar o papel da água utilizada em propriedades rurais, como fator de risco à saúde dos consumidores.

 

MÉTODOS

O estudo foi realizado em 30 propriedades leiteiras situadas na região Nordeste do Estado de São Paulo, sorteadas entre as 94 propriedades que forneciam leite a uma indústria de laticínios. Após o sorteio das propriedades, cada uma delas foi visitada, tendo sido aplicado um questionário com o objetivo de saber a opinião dos moradores sobre a qualidade da água por eles consumida.

As amostras foram colhidas das fontes, reservatórios e bebedouros humanos, nos períodos de chuva e estiagem, e acondicionadas em caixa de material isotérmico contendo cubos de gelo. Posteriormente, foram submetidas às determinações do número mais provável de coliformes totais e Escherichia coli, e contagem de microrganismos mesófilos.1 As médias dos valores das contagens de microrganismos e do teor de nitratos foram comparadas aplicando-se o teste de Tukey para amostras pareadas, aos níveis de 1% e 5% de significância (Steel & Torrie,20 1960).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tabela 1, observa-se a opinião dos moradores das propriedades estudadas sobre a água consumida.

 

 

Pela análise da Tabela 1, observa-se que 100% das pessoas entrevistadas consideraram a água das propriedades de boa qualidade, o que pode justificar a ausência de qualquer tratamento da água consumida e o pequeno número de residências que utilizavam filtros. Esse comportamento, segundo Seoane18 (1988), está relacionado ao consumo da água das fontes por longos períodos sem a ocorrência de problemas evidentes, somado ao bom aspecto da água, que proporciona aos consumidores uma sensação de pureza. Acredita-se que esses fatos impeçam que seus consumidores agreguem juízo de valor no sentido de tratar essa água, pelo menos por um processo de desinfecção, o que certamente minimizaria o risco de veiculação de enfermidades.

Na Tabela 2, verifica-se a situação da falta de qualidade microbiológica das águas das fontes, dos reservatórios e da água consumida nas propriedades estudadas.

 

Os resultados apresentados na Tabela 2 diferem muito do conceito dos moradores, uma vez que elevadas percentagens de amostras de água das fontes (nascentes e poços) estavam fora dos padrões microbiológicos de potabilidade para água de consumo humano (Ministério da Saúde,15 2001), tanto no período de ocorrência de chuva (90%), como no de estiagem (83,3%). Deve-se destacar também uma depreciação na qualidade microbiológica da água em ambos os períodos, desde sua obtenção até o ponto de uso, o que potencializa o risco à saúde de seus consumidores. Acredita-se que essa depreciação esteja ligada à ausência de tratamento da água e de limpeza periódica dos reservatórios, práticas realizadas por apenas 3,3% das propriedades estudadas.

Portanto, observa-se que a contaminação de águas nas propriedades rurais é preocupante, já que existe um risco considerável na ocorrência de enfermidades de veiculação hídrica. A esse respeito, Galbraith et al8 (1987) citam que no Reino Unido, no período de 1937 a 1986, 43% dos surtos de doenças veiculadas pela água ocorreram pela ingestão de água contaminada, de fontes privadas.

Observam-se, na Tabela 3, as percentagens das fontes que apresentavam fatores de proteção da qualidade da água. Verifica-se que nenhuma fonte apresentou 100% dos fatores preconizados para essa proteção.

 

A ausência dos fatores de proteção em grande número das fontes estudadas (Tabela 3), aliada ao fato de que a maioria delas apresentavam profundidades de até 20 metros (Tabela 4), é preocupante pois, limitando-se o poder filtrante do solo, as fontes ficam expostas à contaminação principalmente pelas águas de escoamento superficial e pelas que infiltram no solo. Kravitz et al14(1999) defendem que a proteção das fontes de abastecimento pode preservar a qualidade da água no meio rural onde a desinfecção não é realizada, sendo que cada fator de proteção tem sua importância, e a ausência de um deles já é motivo de preocupação.

 

Geldreich9 (1998) afirma que a água de escoamento superficial é o principal fator que modifica a qualidade microbiológica da água subterrânea, tornando-a de risco à saúde. Segundo Stukel et al21 (1990), esse risco é alto no meio rural, principalmente pela possibilidade de contaminação bacteriana das águas de poços velhos, inadequadamente vedados e próximos a fontes de contaminação.

A inexistência, na maioria das fontes, de todos os fatores de proteção que são preconizados como de grande importância para a preservação da qualidade da água, evidencia a necessidade de um trabalho de orientação às pessoas que utilizam essas águas, com o objetivo de manter sua qualidade.

Observa-se, na Tabela 5, a comparação entre as contagens de microrganismos utilizados para determinação da qualidade higiênico-sanitária da água, nas fontes situadas nos pontos mais baixo e mais alto do terreno e nas fontes com profundidade de até 20 metros e superiores a 20 metros, nos períodos de chuva e estiagem.

 

Na Tabela 5, nas fontes localizadas nos pontos mais baixos do terreno (38,1% dos poços e 77,7% das nascentes) pode-se verificar diferenças significativas entre o número de microrganismos obtidos nos períodos de chuva e estiagem. Essa constatação está relacionada com o escoamento de águas superficiais, que entram em contato com ambiente contaminado, em direção às fontes situadas nos pontos mais baixos do terreno.

Verifica-se também que as diferenças nos valores médios dos microrganismos, obtidos no período de chuva e estiagem, foram significativas nos poços com até 20 m de profundidade, que representaram 80% dos poços existentes nas propriedades estudadas (Tabela 4). Esses valores mostram a susceptibilidade à contaminação desse tipo de fonte, principalmente no período de chuva, em decorrência da percolação rápida dos microrganismos em direção à água subterrânea, aliada ao fato de que o nível da água, durante esse período, aproxima-se da superfície do solo, diminuindo sua capacidade filtrante (Cogger,3 1988; Villegas,22 1988). Esses resultados evidenciam o risco à saúde que esse tipo de fonte pode representar, caso não sejam aplicadas medidas visando ao tratamento e à preservação da qualidade microbiológica da água.

Os resultados obtidos no presente trabalho levam a considerar a água utilizada nas propriedades rurais como um fator de risco à saúde dos seres humanos que a utilizam. Acredita-se que o desenvolvimento de um trabalho de educação sanitária para a população do meio rural, a adoção de medidas preventivas visando à preservação das fontes de água e o tratamento das águas já comprometidas, aliados às técnicas de tratamento de dejetos, são as ferramentas necessárias para diminuir ao máximo o risco de ocorrência de enfermidades de veiculação hídrica.

Além disso, no que se refere à qualidade da água consumida no meio urbano, verificam-se esforços das autoridades em implementar ações que visem a fornecer à população uma água com boa qualidade, enquanto no meio rural, de um modo geral, essas ações praticamente inexistem. Esse fato é relevante porque essas populações, ao utilizarem água em condições inadequadas para consumo, estarão expostas ao risco de enfermidades veiculadas pela água. Encarregar o próprio consumidor de controlar a qualidade da água é uma postura incorreta, uma vez que o seu conhecimento quanto aos riscos que a água pode oferecer à saúde é praticamente inexistente. Depreende-se, portanto, que um trabalho intensivo deve ser realizado no sentido de efetuar a vigilância da qualidade da água utilizada no meio rural e implementar ações que visem ao esclarecimento dessa população, a fim de mudar seu comportamento.

 

REFERÊNCIAS

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3. Cogger C. On-site septic systems: the risk of groundwater contamination. J Environ Health 1988;51:12-6.        

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5. Craun GF. Causes of waterborne diseases in the United States. Water Sci Technol 1991;24:17-20.        

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8. Galbraith NS, Barret NJ, Satbwell-Smith R. Water and disease after Croydon. A review of waterborne and water associates disease in UK, 1937-1986. J Inst Water Environ Manag 1987;(1):7-21.        

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22. Villegas P. Manejo de pollo. Água de buena calidad: Qué es? Avicultura Prof 1988;6:14.        

Escrito por: Luiz Augusto do Amaral 

LINK: https://www.scielosp.org/article/rsp/2003.v37n4/510-514/pt/